Por Carol Braga

Sim, eu dei chupeta para o meu filho. Mesmo me achando uma mãe moderna e informada, não resisti. A lembrança de ver meu pequeno bebê, recém-chegado ao mundo, chupar o seu dedinho desesperadamente como forma de se aconchegar para conseguir pegar no sono, me faria dar a chupeta a ele quantas vezes fosse necessário. Naquele momento (como em tantos outros do meu recém-contrato como mãe) eu tive medo de errar. Sabia dos riscos de oferecer um vício ao meu filho para acalmar as minhas ansiedades de mãe de primeira viagem. Mas diante da cena de um bebezinho, se contorcendo de cólicas e parando de chorar no mesmo instante em que abocanhava a chupeta, quem pensaria em dentinhos tortos ou no quanto seria difícil o processo de retirada desse vício, que hoje descobri ser muito mais meu do que dele?

 

nascimento miguel

Foto: Carol Braga

 

Hoje, aos 2 anos e 9 meses, meu pequeno não chupa mais a chupeta. Mas confesso que eu (muito mais do que ele) sinto uma falta danada dela. Tive que (re) aprender a viver sem esse doce artifício que era calmante para meu filho (ou seria pra mim?) depois de uma queda, na hora de dormir ou quando simplesmente eu queria que ele ficasse quietinho por uns minutos.

As velhas chupetas de Miguel ainda moram em minha bolsa. Lá no fundo, esquecidas em um saquinho, mas moram. Eu, secretamente, vez ou outra, ainda dou uma espiadinha nelas. Ele nem imagina que elas ainda estão lá. Meu pequeno valente entregou o vício da mãe para a Fadinha das Chupetas, num ato corajoso que me encheu de orgulho. Na madrugada da entrega, eu mal conseguia dormir. Ele dormia como um anjo, sem sequer lembrar que sua companheira de anos não estava mais ali. Enquanto isso, eu perambulava pela casa, espalhando pó de pirlimpimpim durante a madrugada, deixando rastros que fizessem meu pequeno guerreiro, ao acordar, acreditar que a Fada tinha de fato passado por ali.

 

Magica da fadinha

Fotos: Carol Braga

No dia seguinte, ele acordou às 7 da manhã e pediu a “pepê” para continuar a soneca, como de costume. “A gente deu ontem para a Fadinha, lembra, Miguel?”. O choro que se deu após esse momento somado a exaustão de uma noite mal dormida quase me fizeram dizer: “espera filho, ela esqueceu de levar uma que estava na bolsa da mamãe”. Mas respirei fundo e resisti. Levei Miguel para ver a maçã que a fadinha havia mordido quando passou pela nossa casa (sim, as fadinhas adoram maças e por isso, antes de dormir, deixamos uma maça bem apetitosa para ela). Ele achou graça. O caminho feito com pozinho de pirlimpim nos levou de volta para a cama onde encontramos as moedinhas que a fada gentilmente deixou embaixo do travesseiro para que ele pudesse comprar o carrinho que tanto queria. E assim foi… com muito carinho, paciência, fé e um pouquinho de magia (porque não?). Esse processo levou um mês.

 

Talvez o mais longo de toda a minha vida. Tivemos alteração de humor, fome e sono por parte do Miguel. E muitos momentos de achar que não conseguiria por parte da mamãe (incluindo choro as escondidas). Mas vencemos! E após um mês, a rotina se restabeleceu e aprendemos que a mudança de um hábito não é fácil, mas ela só acontece a partir do momento em que decidimos que queremos muito que algo mude. Por aqui a gente queria tanto (porque o hábito da chupeta já’ não era mais reservado apenas para os momentos de sono) que decidimos que ninguém mais tocaria no assunto, com receio de recaídas. Proibimos a família toda de mencionar a palavra chupeta. Fugíamos de crianças que as estivessem usando. Até que Miguel, dentro da igreja, inevitavelmente, se depara com uma menininha com uma chupeta na boca e nos surpreende de novo. “Mamãe, ela não deu a “pepê” dela pra fadinha ainda porque ela é bebezinha. Eu já sou menino grande”.

 

miguel

Foto: Carol Braga

 

É Miguel, você já é um menino grande e agora descobri porque ainda não tive coragem de jogar suas velhas chupetas no lixo: elas são o fio que me ligam ao bebê que você foi um dia (qual mãe não quer o bebê pra sempre debaixo de sua proteção?). Você não precisa mais delas, meu filho, mas a mamãe ainda precisa desse deleite de carregá-las na bolsa para me lembrar que um dia você foi o meu bebê. Não sirvo pra ser fada. Mas com minha varinha, que prefiro chamar de fé, rezo, torço e até negocio com Deus e com todos os anjos para que todo o mal saia do seu caminho e que você cresça sendo capaz de usar suas próprias asas como proteção.

 

Carol 2Carol Braga Ferraz é mineira de nascimento e criação, campineira por “adoção”, casada, mãe do Miguel. É pedagoga de formação e como uma grande amiga gosta de dizer, “publicitária de coração”. Atualmente trabalha em sala de aula com crianças da Educação Infantil e promove Encontros Brincantes na cidade de Campinas e região, com o intuito de oferecer repertório de brincadeiras de qualidade aos pais e atividades sensoriais que estimulem os sentidos das crianças de 6 meses a 6 anos, favorecendo o desenvolvimento infantil. Seu quintal está sempre de portões abertos lá no  instagram.com/conversadequintal/   e no  facebook.com/conversadequintal/

 

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