Por Carol Braga

Entra ano, sai ano e nós professoras lidamos com a famosa adaptação escolar. Entre um choro de criança aqui e um choro de uma mãe ali, enfrentamos essa fase difícil, mas que sabemos de cor: passa rápido.

adaptacao 1

Passa rápido? Sim, como professora eu acreditava nisso. Até experimentar o outro lado e como mãe, sentar no banco da adaptação. Foi nesse momento que percebi que uma simples hora pode durar uma eternidade. Fazer adaptação do filho dos outros é moleza, difícil mesmo é fazer a adaptação do próprio filho. Não me ensinaram isso na faculdade. E agora? Agora, aqui estou eu de olhos vermelhos, olhando para cima, fazendo um enorme esforço para não deixar as lágrimas caírem. Justo eu, que me achava a mais “escolada” das pessoas, que acreditava que depois de anos e anos fazendo adaptação escolar dos meus alunos, tiraria esse momento de letra.
A desculpa de que entrou um cisco nos meus olhos não colava mais e precisei ser forte para assumir que sim, eu estava com o meu coração miudinho. E sim, eu estava precisando muito mais de colo do que o meu pequeno, que chorava dentro da sala de aula. O que mais precisamos nessa hora é colo e ponto final. O mesmo colo que eu estava ali, no banco da adaptação, disposta a dar ao meu filho.

adaptacao 2
Nesses dias de adaptação, pensei em todas as mães que passaram por mim nos últimos anos. Fiquei com vontade de procurá-las para dar um abraço apertado e dizer: agora eu te entendo! Na escola, dizem que a criança está em adaptação, mas na verdade, nós pais também estamos. Se os nossos filhos choram, eles vão até nós. E nós, a quem recorremos? Como seria bom se pudéssemos contar com as nossas mães, avós dos nossos pequenos, no banco da adaptação. Seria perfeito tê-las ali para o caso de precisarmos delas.

Mas uma coisa aprendi: nossas mães não estão ali, mas estão outras tantas mães que passam ou passaram por isso e, numa espécie de “terapia em grupo”, compartilham desse sentimento que eu nem sei nomear: a hora de tirar aqueles dedinhos do seu pescoço e deixar o filho, mesmo chorando, no colo da professora. Por mais que eu saiba que esse é o procedimento, que faz parte da vida, que todas as crianças (inclusive eu e você) já passaram ou vão passar por isso, ainda assim eu me sentia péssima. Porque mãe é assim e pronto. E se você já é mãe e já passou por isso, sabe do que estou falando.

adaptacao 3

E se ainda não passou, tenha em mente que na mesma intensidade que esse momento chega, ele vai embora. Esse pensamento não vai fazer com que suas lagriminhas não escorram quando chegar a sua vez, mas certamente o mantra “a adaptação não dura para sempre” será seu companheiro de banco nos primeiros dias na escola. E depois da “tempestade”, acredite: percebemos que realmente esse tempo passa rápido. E voltamos a sorrir.
Sim, existe vida pós adaptação escolar. Depois do sentimento de coração partido que nos cerca nesse período, de querer jogar tudo para cima, “sequestrar” o próprio filho das mãos da professora e sair correndo para um lugar “seguro” com ele, nos vemos naquela cena ridícula, espiando por cima do muro ou por trás da árvore, e vemos que estão felizes, brincando com baldinhos e fazendo castelos de areia. E sem que a gente perceba, nossas lágrimas caem novamente. Mas dessa vez elas não estão sozinhas. Estão acompanhadas do nosso sorrisinho bobo, bem no canto da nossa boca.

 

Carol 2

Carol Braga Ferraz é mineira de nascimento e criação, campineira por “adoção”, casada, mãe do Miguel. É pedagoga de formação e como uma grande amiga gosta de dizer, “publicitária de coração”. Atualmente trabalha em sala de aula com crianças da Educação Infantil e promove Encontros Brincantes na cidade de Campinas e região, com o intuito de oferecer repertório de brincadeiras de qualidade aos pais e atividades sensoriais que estimulem os sentidos das crianças de 6 meses a 6 anos, favorecendo o desenvolvimento infantil. Seu quintal está sempre de portões abertos lá no  instagram.com/conversadequintal/   e no  facebook.com/conversadequintal/

Compartilhar: