Por Anna Cruz

Às vezes fico incomodada com a massificação de determinadas “modinhas”, criando padrões para a infância: crianças que parecem produzidas em série, com a mesma marca de mochila, o mesmo brinquedo, o mesmo penteado, usando as mesmas gírias, comendo o mesmo biscoito recheado. Eu sei que há diversas explicações para isso – minha cria me recorda da necessidade de “pertencer”, de ser um na “turma”, de apresentar uma credencial.

Mas meu incômodo não passa. Até piora, na verdade. Mostrei para a pequena o vídeo da Chimamanda Adichie, que trata sobre os riscos da história única, das representações parceladas, da criação de estereótipos (mas o resumo não vale; clique aqui no link e assista: https://www.youtube.com/watch?v=EC-bh1YARsc ). A nigeriana conta que, em sua cabecinha infantil, o mundo era povoado por aqueles personagens das historinhas que lia: todos caucasianos, discutiam sobre o clima e brincavam na neve – e ela, que vivia no Golfo da Guiné onde neve não havia, e onde centenas de grupos étnicos que compõem o país propiciam uma realidade muito, muito mais diversa, pensava que a vida era aquilo mesmo.

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Pois é. Diversidade. A palavra está em muitos discursos, a ideia de respeito à diversidade é algo inquestionável (bem, tem que se esforce para um caminho em marcha ré, só que não cabe, gente, simplesmente não cabe), mas como é difícil colocar em prática… Se eu não conheço o diferente, se eu não permito uma aproximação afetiva, aí ele será apenas o “bizarro”, o “esquisitão”, o “alien”, e eu e minha turminha continuaremos adorando o igual, suspeitando que ele é único e, como narcisos, “achando feio o que não é espelho”.

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A lei 10.639, de 2003, foi uma tentativa de acabar com a história única na escola, tornando obrigatório o ensino sobre história africana e cultura afro-brasileira. Criou também o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Mas o que nós, adultos, professores ou não, sabemos sobre a África? O que temos a ensinar, se nossa própria formação foi cheia de lacunas?

Com minha fixação por livrinhos, fui atrás de títulos que abrissem horizontes e apresentassem o continente vibrante, plural e tão próximo de nós. Há vários deles lá na minha “Sobreria”, o ” Sobre Isso e Aquilo”. Encontrei por exemplo a coleção “Africanidades” (diversos autores, editora Ciranda Cultural), com livros infantis que trazem “A história dos africanos no Brasil”, “A influência africana no nosso idioma”, “A religião africana no Brasil”, “Culinária afro-brasileira”, etc.. Cada livro custa em média R$10 e valeria bem mais que isso.

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Contar outras histórias não faz bem só àqueles personagens que, enfim, ganham visibilidade. Contar novas histórias permite que todos os personagens se inspirem mutuamente, reconheçam similaridades, descubram novas possibilidades – novas possibilidades inclusive de brinquedos, de palavras, de penteados, de comidas, de músicas. E vocês: já encontraram narrativas em que as heroínas comem manga e não maçã?

 

Anna Cruz é mãe da M.L. e da C., filha da Vera e do Orlando, da Ana Maria Machado e do Ziraldo, da Ruth Rocha e do Sidónio Muralha, da Eva Furnari e do Roald Dahl, da Silvana Rando e do Michael Ende, da Sylvia Orthof e do Ilan Brenman. Conhecida também por “Dona Sobre”, por conta do instagram.com/sobreissoeaquilo

 

 

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