Por Anna Cruz

Dia desses estive em uma biblioteca comunitária em área considerada periférica da cidade. Fui sabendo pouca-coisa-quase nada sobre o que acontecia naquela casinha verde, encravada em uma rua estreita, fora do meu caminho por mais de trinta de anos. Fui levando três livros do André Neves (porque “eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu André Neves, meus livrinhos e a poesia”) para ler para as crianças e muita timidez, já que usualmente duas garotas representam a lotação máxima da minha plateia.

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Meu marido chegara semanas antes com o convite, uma coisa meio assim-assim genérica, para ir e tentar fazer algo legal, e eu, como sou de ir quando o destino é literatura infantil, fui. Chegando lá, a casinha era verde, mas não era casinha: era um mundo, de altos e baixos, livros por todos os lados, acervo riquíssimo, lindamente catalogado, paredes coloridas, brinquedos, crianças e jovens leitores de todas as idades, voluntários dedicados, envolvidos, imersos, íntimos daquele cenário. Aquele cenário que eu posso tentar adjetivar, mas só quem vê entende.

E aí a meninada menorzinha gentilmente se dispôs em círculo. Vinte, espera, trinta, espera, quarenta, espera, quarenta e oito! Quarenta e oito pequeninos sentados, olhos atentos, confortáveis na etiqueta de quem já está acostumado ao momento da história, à escuta respeitosa e ao silêncio reverente. E eu, eu que nem merecia nada daquilo, que nem contadora sou, e eu que naquele instante tinha em curvas na cabeça o “Poema em Linha Reta” (‘eu…que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado tenho sido mais ridículo ainda”), eu ali, titubeando como era de se esperar, gaguejando como o planejado, falando baixo como sempre. Mas me sentindo plena.

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As crianças, imensamente generosas, acolheram com carinho a história de “Obax”, que eu talvez tenha quase estragado. As crianças, sinceramente felizes, aceitaram a proposta de pintar pedrinhas brancas “Nafisas” e gravar nelas seus sonhos secretos ou seus interesses mais explícitos. As crianças, livres de preconceitos, perdoaram a minha falta de jeito, brincaram com minhas filhas, folhearam meus livros e redefiniram as coordenadas dos meus mapas interiores.

Pintando pedras
Deixa-me corrigir: dia desses estive em uma biblioteca comunitária que fica no centro do mundo. Um lugar em que crianças mergulham em experiências literárias, onde são tratadas com respeito à infância, protegidas de mazelas de adultos, um lugar dessa qualidade é onde se modela, de verdade, o futuro e não é, sob nenhum aspecto, periférico. Que haja mais casinhas verdes neste país.

 

Anna Cruz é mãe da M.L. e da C., filha da Vera e do Orlando. É apaixonada por literatura infantil e tem uma identidade extraordinária, um “lado B” da vida, que é ser a “Dona Sobre”, feliz proprietária do perfil no Instagram @sobreissoeaquilo, onde mantém uma “Sobreria”, através da qual “prescreve” livros para as mais variadas situações!

 

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