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Por Anna Cruz

 

 

Semana dessas, o “Sobre” fez um especial sobre envelhecimento. É algo que me interessa seja por curiosidade acadêmica, seja por afetos imensos que me ligam aos meus avós, todos já “idosos-idosos” (maiores de 80 anos). Quis, então, selecionar histórias que trouxessem protagonistas mais velhos, que explorassem a relação com netos, o convívio e o ganho intergeracional, a experiência – uma oportunidade de mostrar aos leitores do “Sobre” e às minhas filhas a magia que há nesta fase da vida e também um momento para relembrar a necessidade de um acervo (seja ele a biblioteca doméstica, da escola, da igreja…) estar atento à bibliodiversidade.

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Bibliodiversidade, em linhas muito resumidas, seria o reflexo da diversidade cultural no mercado editorial: que haja produções independentes, que se ponham à disposição dos leitores temas variados, com abordagens distintas, que sejam incentivadas a publicação e a leitura de materiais além do best-seller e das histórias consagradas. Nesse movimento – ou, talvez, diante dessa consciência –, as estantes deveriam ter espaço para histórias sobre (e feitas na) África, histórias indígenas, histórias sobre famílias não-convencionais, histórias sobre deficiências, etc..

Pois bem. Então lá estava eu selecionando livros para a semana temática sobre envelhecimento. Sim, no mercado há diversos títulos sobre passagem do tempo, sobre fragilidades, sobre finitude, sobre morte. Opa. Novamente, a imagem colada à velhice tem um tom nostálgico, um peso de tristeza. Acho que não há muita “diversidade” assim…

Escolhi coisas belíssimas como o “Vó Nana” (Margaret Wild & Ron Brooks, editora BrinqueBook), que trata sobre a relação amorosa de Vó e Neta e das providências de vovó quando toma consciência do seu próprio fim, em um gesto de serenidade e delicadeza.img

Há ainda “Dona Dolores” (Heinz Janisch & Helga Bansch, também BrinqueBook) e a amizade com seu vizinho, um garotinho cerca de oitenta anos mais novo que ela, que lhe conta “causos” nos quais a idosa vira heroína, forte, divertida e poderosa, embora na realidade ela esteja acamada e sem amigos.

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Mas procurei algo em que a velhice fosse retratada com a complexidade que todo ciclo tem, algo que fosse além de cansaço, morte e esquecimento. Um livro que falasse do avô ativo, “resolvedor” de problemas, senhor de suas decisões. Ou da avó contadora de histórias, que dá colo, que nos enternece ligando-nos a um passado que nem vivemos. Um livro em que o idoso não vivesse sob a sombra de um futuro curto e que nem mesmo preocupasse com ele. É possível que este livro esteja por ser escrito, por avós e por seus netos, sensíveis à vida, que é plena em cada dia que se vive.

 

Destacada ANNA

(*)  Anna Cruz – Graduada em Direito, especialista em Geriatria e Gerontologia, mestre em Direitos Humanos. Autora do livro “Vulnerabilidade humana e envelhecimento: o que temos a ver com isso”,  editado pela Portal Edições, 2015.

É mãe da M.L. e da C., filha da Vera e do Orlando, da Ana Maria Machado e do Ziraldo, da Ruth Rocha e do Sidónio Muralha, da Eva Furnari e do Roald Dahl, da Silvana Rando e do Michael Ende, da Sylvia Orthof e do Ilan Brenman. Conhecida também por “Dona Sobre”, por conta do instagram.com/sobreissoeaquilo

 

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