Por Helen Penna

Gostaria de iniciar essa reflexão com uma frase que ouvi de uma das maiores educadoras musicais que conheço, Josette Feres, que diz: “Tudo o que a gente canta vai direto para o nosso coração”.
A música tem o poder de agir na cadeia neural como um todo. Por ser composta de diversos elementos, capazes de acionar diferentes áreas, ela não age exclusivamente em uma região do cérebro. A parte do ritmo, por exemplo, é trabalhada no cerebelo – o qual se acha relacionado à aprendizagem motora.

 

Imagem via phouse.com.br

 

Por sua vez, os aspectos relacionados à interpretação da letra ativam a área de Broca, correspondente – grosso modo – à fala. Já a parte da emoção atinge o sistema límbico, e por aí vai.

 

A música, por assim dizer, é multifocal e gera sensações e memórias que permanecem para sempre. A grande prova disso é que, se um filme não possuísse uma trilha sonora, ele não causaria em nós o mesmo impacto.

Já uma cerimônia de casamento, sem as músicas de entrada, dificilmente evocaria as emoções que costuma evocar.
Imagine uma noiva entrando pela passarela da igreja em completo silêncio! Não há dúvidas de que a música não só é capaz de ativar as nossas emoções, como também tem o poder de nos fazer lembrar de pessoas, momentos, cheiros e lugares.

 

Imagem via phortetv.com.br

 

Eu poderia citar muitos outros exemplos de como a música tem poder de nos marcar e de gerar em nós sensações, mas gostaria de chamar a atenção dos pais para o fato de que se nós, que somos adultos, absorvemos a música de uma forma tão poderosa e intensa, o que dirá das crianças, que durante grande parte do seu processo de aprendizado, portam-se como esponjas, absorvendo todo o tipo de informação.


Qual o tipo de música que estamos oferecendo aos nossos filhos?

A reflexão também é válida para nós, educadores. Que tipo de música estamos oferecendo aos nossos alunos?

O desejo de escrever esse texto nasceu há algum tempo, quando, visitando alguns perfis de Instagram, me deparei com o post de uma instituição que trabalha com crianças nas áreas da psicomotricidade, da coordenação motora, etc.

Na publicação a que me refiro, uma professora ensinava uma coreografia para os alunos, ao som de “Despacito”. Evidentemente, todos cantavam em coro a letra da música. Escrevi-lhes uma nota, alertando acerca dos perigos da letra da música em questão, mas não obtive resposta, tampouco o interesse deles pelo assunto.

 

Imagem via vamaislonge.com.br

 

Não muito depois, assisti a outro vídeo onde uma animadora de festas infantis, rodeada de crianças, cantava a mesma música. As crianças cantavam praticamente aos berros, tamanha a empolgação delas pelo hit. Infelizmente, eu poderia citar outros exemplos tristes, onde vi a mesma canção sendo utilizada no trabalho com crianças.

A pergunta que gostaria de fazer é: será que algum desses profissionais, ao escolher essa música, sequer teve o cuidado de ler a tradução ou de assistir ao seu clipe, antes de oferecê-la às crianças? Alguém poderá objetar: “Ah, Helen, não seja radical!

A música é um sucesso; todo mundo canta e todo mundo adora”. Todo mundo menos eu. Menos os meus alunos. Menos as crianças pelas quais sou responsável. E, se me preocupo com a formação delas, também devo alertar os seus pais (e tantos outros que eu puder) para que pensem no conteúdo que está sendo transmitido às crianças dessa geração.

Como se pode ver em trechos de sua letra traduzida (clique e veja: Despacito – Tradução  ), essa é uma música de cunho exclusivamente sexual e adulto. Não é uma música para ser usada em sala de aula, em sessões que trabalham psicomotricidade, tampouco em animação de festas, se o público em questão é infantil.

 

Imagem via Google

 

A razão é muito simples: a única mensagem que estará sendo passada à criança é a que está contida na letra dela: sexo. E assim vejo acontecer não só com essa, mas com tantas outras músicas que não são adequadas para o trabalho com crianças, mesmo que estejam em outro idioma.
Se você é pai ou mãe, e acha bonito ver seu filho cantando essa música em espanhol, procure ler o que você está permitindo que ele cante; o que você está permitindo que penetre no coração e na mente dele. Se as crianças hoje têm a sexualidade tão aflorada na mais tenra idade, deveríamos refletir se um dos motivos não seria a exposição a conteúdos inadequados para a maturidade que elas possuem.
Fica aqui o meu alerta a todos vocês, pais, tios, avós, cuidadores, educadores ou profissionais que trabalham diretamente com crianças. Não se esqueçam do poder da música e procurem selecionar BEM o que oferecem às crianças. Em meu Instagram (@musicalizacaoinfantil), cito excelentes referências de canções, cds, compositores e cantores.

 

Imagem via soniaideias.com

 

Existe muita coisa boa para se ouvir, se trabalhar, se usar em festas ou em qualquer outra atividade; conteúdos que levam uma mensagem que as crianças de fato devem carregar para a vida.

 

Fica aqui o meu apelo e meu alerta.  Adoraria saber o que você pensa sobre esse assunto. Deixe sua opinião nos comentários!

 

Helen Penna é bacharel em flauta transversa pela Universidade Estadual de Minas Gerais e professora de musicalização infantil em Belo Horizonte. Tão logo se graduou na universidade, descobriu que sua paixão não era propriamente tocar numa orquestra, mas, sim ensinar música. Por um feliz acaso da vida passou a dar aula de musicalização para bebês e crianças e descobriu o caminho que trilha até hoje. É autora do Instagram @musicalizacaoinfantil e da página no facebook/musicalizacaoparacriancas , ambientes que a possibilitam a unir a paixão pela fotografia, (ela mesma fotografa seus materiais) e o amor pela profissão, evidenciado nas postagens de suas atividades e de vídeos com seus alunos.

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