Por Helen Penna

Muito se tem falado sobre musicalização infantil nos últimos tempos. No primeiro texto que escrevi aqui no blog, apontei a importância de se musicalizar um bebê e os benefícios que essa prática traz a ele, bem como às crianças maiores.

 

Qual é, no entanto, a diferença entre musicalização e recreação musical? Creio que falar dessa questão seja de suma importância, já que alguns pais sequer estão cientes de que existe uma diferença entre uma coisa e outra ao contratarem um profissional para “musicalizar” o seu filho.

 

Existe, atualmente, uma ampla discussão sobre quem é apto ou não para ser um professor de musicalização infantil. É preciso ser graduado em música? Que tipo de conhecimento musical o candidato precisa ter para ser um professor de musicalização? Eu diria, com muita cautela, que o ideal seria, SIM, que todo professor de musicalização fosse graduado em Música, mas sabemos que essa não é a realidade do Brasil.

 

Foto via akai.org.tw

 

O que é Recreação Musical?

 

Tenho visto que algumas pessoas desenvolvem um trabalho que tem como objetivo apenas entreter e divertir as crianças com a música. É o que chamo de recreação musical. São atividades em que o profissional não possui um plano traçado para alcançar um alvo que seja, de fato, relacionado a competências musicais. O objetivo básico é pegar um violão e cantar algumas canções, fazendo uso de alguns brinquedos ou até mesmo instrumentos.

 

Isso é ruim? Não! Claro que não! Música é vida, e queremos que as crianças cantem e se alegrem. Porém, não se pode dizer que a criança está sendo musicalizada quando um profissional lhe propõe apenas uma atividade recreativa.

 

Foto: montessoritabor.cz

 

O que é Musicalização Infantil?

 

Numa aula de musicalização, a criança realiza diversas atividades cuja proposta é trabalhar, dentre outras coisas, os parâmetros do som (curto e longo, grave-médio-agudo, forte e fraco, rápido e devagar), além de movimentos sonoros de subidas e descidas e o próprio silêncio (muita vezes esquecido).

 

A musicalização também permite trabalhar padrões rítmicos (seja num tambor, no corpo ou com o corpo), a escuta sonora, o timbre (lançando mão do som emitido pelos instrumentos, animais, meios de transporte, etc.). Além disso, existe uma preocupação com o tom escolhido para as músicas, a fim de preservar da melhor forma a voz da criança (já pensou na seriedade disso?), e eu poderia ficar aqui listando ainda tantas coisas que temos o cuidado de trabalhar e pensar.

 

Foto: Helen Penna

 

Na musicalização, o professor tem um olhar totalmente diferenciado para a criança. Seus conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil o ajudam a adequar, da melhor maneira possível, a canção, o instrumento ou o material selecionado, de modo a alcançar o objetivo que tem em mente. Ele estará atento para trabalhar situações específicas, caso a criança demonstre alguma limitação eventual (atuando em conjunto com os pais, professores da escola e outros profissionais, se necessário).

 

Isso se dá porque através da música a criança se expressa de diferentes formas, o que possibilita ao professor realizar essas observações. Existe um cuidado (ou, pelo menos, deveria existir) com as referências de timbre oferecidas à criança, porque, no caso de um bebê, por exemplo, o que estamos fazendo é literalmente fornecer-lhe suas primeiras referências sonoras. Não podemos, então, lhe dar uma maraca cujo som machuque o seu ouvido (que estará em formação até os 2 anos).

 

O professor selecionará, então, uma maraca cujo som seja mais próximo do real. Se usar um tambor, que seja aquele que tenha um som mais próximo de um tambor real. Se vai escolher músicas para tocar na sala através de CD, então deverá escolher arranjos feitos com instrumentos reais, e não, com sintetizadores.

 

Em outras palavras, o professor fará de tudo para dar ao aluno as melhores referências sonoras possíveis, porque são elas que ele irá levar para a vida. Num nível mais profundo, ele não irá escolher músicas da moda apenas porque as crianças irão cantar junto (gerando um resultado imediato). Escolherá músicas que de fato tenham um objetivo, que o ajudem naquilo que deseja trabalhar.

 

Foto: Helen Penna

 

O que se deve observar?

 

Possivelmente muitos pais não têm todas essas coisas em mente ao contratar um professor para seu filho ou matriculá-lo numa escola de música.

 

Minha sugestão é que, a partir de agora, os pais passem a observar o que o professor ou a escola têm oferecido em suas aulas. A partir daí, façam um julgamento se de fato está havendo musicalização ou apenas diversão musical. Novamente, a recreação musical é ruim? Não, não é. Entretanto, o pai precisa saber que esse tipo de “aula” não dará ao seu filho nenhum tipo de base musical.

 

Isso quer dizer que a aula de musicalização não pode ser divertida? De maneira alguma! Ela pode e deve ser prazerosa para a criança! As aulas que ministro a bebês e crianças são muito lúdicas. Lanço mão de elementos “extras”, como brinquedos sonoros e fantoches, mas tudo com um objetivo bem definido, que cumpra o que estabeleci no meu plano de aula.

 

Foto: momtastic.com

Meu objetivo não é condenar os recreadores musicais; longe disso. O que desejo é promover uma reflexão.

Portanto, se você, pai ou mãe, não sabe se o professor de seu filho está musicalizando ou apenas realizando atividades recreativas, sugiro que você o indague acerca dos objetivos de uma determinada atividade proposta.

 

Pergunte que habilidade ou conceito está sendo trabalhado ali. Se ele não souber responder, pode ser que ele não esteja musicalizando ou de repente que precise repensar aquela atividade. Afinal, musicalizar vai muito além de simplesmente fazer uma roda musical e, ao som de um violão, entoar as músicas da famosa galinha.

 

Espero que tenha gostado desse post.  Adoraria saber o que você pensa sobre esse assunto. Deixe sua opinião nos comentários!

 

 

Helen Penna é bacharel em flauta transversa pela Universidade Estadual de Minas Gerais e professora de musicalização infantil em Belo Horizonte. Tão logo se graduou na universidade, descobriu que sua paixão não era propriamente tocar numa orquestra, mas, sim ensinar música. Por um feliz acaso da vida passou a dar aula de musicalização para bebês e crianças e descobriu o caminho que trilha até hoje. É autora do Instagram @musicalizacaoinfantil e da página no facebook/musicalizacaoparacriancas , ambientes que a possibilitam a unir a paixão pela fotografia, (ela mesma fotografa seus materiais) e o amor pela profissão, evidenciado nas postagens de suas atividades e de vídeos com seus alunos.