Por Professora Denise Ferreira

Como ajudar os pequenos a enfrentar o medo da escola? Questões relacionadas a SENTIMENTOS e AUTOESTIMA estão presentes diariamente no cotidiano da educação e não devem ser ignoradas.

É comum ouvir de crianças, pais e professores que alunos ficam com medo de provas, de não tirar notas boas, de repetir de ano, de não conseguir aprender o que precisa…

Esse “medo do desempenho” nas atividades escolares pode aparecer durante toda a vida escolar, principalmente no início do ano letivo, devido às mudanças que as crianças atravessam nessa fase.

 

 

 

Na maioria das crianças esse sentimento é até saudável, mas há grupos ou alunos onde o nível de nervosismo, ansiedade podem passar do limite que consideramos normal.

Se não trabalhado pelos educadores e pais, esse medo pode levar a sérios problemas como o baixo rendimento, ausência de socialização com colegas e até baixa autoestima, podendo chegar ao extremo da repetência ou mesmo da “Fobia Escolar” (o medo da escola ou o medo de ir à escola)!

Ao me deparar com uma situação desse tipo, senti a necessidade de desenvolver um projeto com as crianças que trabalho (9 a 10 anos) com o objetivo de ajudá-las a superar esse sentimento, através de variadas ações e atividades desenvolvidas ao longo do ano letivo.

 

 

Abaixo descrevo um relato dessa incrível experiência que vivenciamos na escola, a “DINÂMICA DO MEDO NA ESCOLA”!

 

 

▶ PREPARANDO A DINÂMICA

Para fazer essa dinâmica usei:

  • Um quadro ou um grande papel para escrever o mapa mental
  • Pedaços de papel
  • Caneta/ lápis  para escrever nos papéis
  • Uma caixa para depositar os papéis escritos

 

▶ QUEM PODE PARTICIPAR?

Recomendo que essa dinâmica seja aplicada com alunos partir do 3º ano do Ensino Fundamental I (8 anos), idade em que, segundo Jean Piaget a criança ingressa no estágio de operações concretas e começa a desenvolver a noção de justiça e vontade da cooperação.


🚩 Passo 1 – INSTIGANDO A CURIOSIDADE:

✅Comecei a atividade escrevendo a palavra MEDO dentro de um grande círculo na lousa.

Ao lerem essa palavra na lousa, as crianças começaram a surgir comentários…“Ué, hoje a aula é sobre medo?” ” Não teremos matéria hoje?” “Do que você tem medo professora?”

 

Esse foi o ponto de partida e para incentivá-las ainda mais, complete dizendo: “Meu maior medo é de barata!”. Assim, quebrei o clima de seriedade e foi descontração e só risadas!

 

 

Foi então que esclareci ao grupo o porquê da palavra MEDO escrita na lousa. Disse a eles que estava ouvindo alguns comentários de crianças, pais e outras professoras de que alguns alunos estavam com medo das provas, de não tirar notas boas, de repetir de ano e estavam muito estressados e ansiosos com esse sentimento.

Expliquei que nessa aula havia decido deixar a matéria de lado nesse dia (trabalho somente matemática com esse grupo!) para conversar com eles sobre esse medo que tanto os estava incomodando.

 

🚩 Passo 2 – HORA DE COMEÇAR A DISCUSSÃO!

Combinei com as crianças que iríamos tratar especificamente sobre o MEDO DE COISAS NA ESCOLA e que, se desejassem, poderíamos conversar sobre outros medos em outro momento.

✅ Entreguei um pedaço de papel para cada aluno e pedi que escrevessem nele seu medo em relação à escola e que poderiam ou não se identificar no papel.

✅ Após escreverem, as crianças foram colocando esses papéis numa caixa que deixei perto da lousa para esse fim.

 

 

 

Com a caixa cheia em mãos, reafirmei a eles os meus objetivos com esse trabalho: não estava preocupada com quem escreveu o que, mas sim descobrir quais os principais medos em relação à escola que o grupo sentia.

✅ Misturei os papéis e comecei a tirá-los da caixa, um a um, sempre seguindo o mesmo critério:

  • Abrir o papel
  • Ler em voz alta o que estava escrito (sem revelar quem escreveu)
  • Transcrever o conteúdo na lousa em volta do círculo, formando um mapa conceitual sobre os MEDOS do grupo.

Assim fomos construindo num mapa com um conjunto de medos sobre coisas da escola de todos do grupo. A cada papel que abria, novas revelações e muitas descobertas!

 

 

Os mesmos medos fora citados por diversas vezes! Depois de todos os papéis abertos constatamos que muitas crianças tinham medos parecidos ou até mesmo iguais.

Deixei aberto ao grupo a possibilidade de acrescentar mais ideias nesse mapa. Esse foi um momento muito marcante da atividade, pois juntos havíamos relacionado 23 medos no total!!

 

 

🚩 Passo 3 – BUSCANDO SOLUÇÕES!

O próximo passo da dinâmica foi desafiar as crianças a dizerem como  enfrentar e resolver os medos que nós havíamos relacionados juntos.

Escrevi a frase “COMO ENFRENTAR OS MEDOS” ao lado do mapa conceitual e solicitei que o grupo ajudasse a fazer uma lista com ideias para enfrentar todos esses medos que foram levantados.

 

 

A cada solução, voltávamos ao mapa dos medos e marcávamos qual medo a solução sugerida resolvia. Descobrimos que uma mesma solução, como por exemplo, “estudar para se sentir seguro” resolvia MUITOS dos medos!

No final conseguimos organizar 7  ideias que ajudavam a resolver TODOS os 23 medos levantados.

 

 

 

Foi uma grande surpresa constatar que tudo era tão simples e fácil de resolver!

🚩 Passo 4 – REFLETINDO SOBRE AS DESCOBERTAS!

Novamente desafiei o grupo a olhar para nossos registros e extrair conclusões: o que pudemos descobrir com essa discussão?

💠  O GRUPO CHEGOU A UMA INCRÍVEL DESCOBERTA: para 23 medos, só precisavam de 7 soluções para resolvê-los!

A animação correu solta nessa hora e as crianças ficam muito felizes em sentir que não estavam sozinhas com seus medos e que através de simples ações poderiam ser ajudadas.

 

 

 

Foi muito gratificante para mim observar o clima de alívio por parte do grupo por ter tido a oportunidade de expor seus sentimentos, por terem sido ouvidos e acolhidos. A mudança do ambiente afetivo e o fortalecimento da AUTOESTIMA do grupo foi nítido!

 

 

🚩 Passo 5 – AVALIANDO O TRABALHO: O QUE VOCÊ APRENDEU HOJE?

Para encerrar nossa reflexão, propus aos alunos que descrevessem o que descobriram com a atividade. As respostas foram surpreendentes!!

“Aprendi que podemos dominar todos esses medos com apenas 7 soluções e que só preciso de 3 para resolver os meus medos!” (ED)

Não preciso ter medo, porque sempre vai ter alguém que pode me ajudar.” (DA)

“Aprendi que todos medos que a gente colocou, podemos resolver com apenas 7 soluções!” (MA)

“Mesmo quando a gente pensa que não dá pra resolver, eu vi que dá!” (MA)

“Agora que vi tudo isso escrito aí, meu medo já passou!” (GA)

“Somos muito medrosos! Mesmo sendo pessoas diferentes temos medos parecidos.” (AC)

“Percebi que outras pessoas tem os mesmos medos que eu!” (CRI)

“A gente consegue evitar os medos olhando para o que está escrito aí.”(SA)

 

 

 

Para finalizar essa atividade, reproduzimos nossas anotações em um cartaz e o fixamos num espaço coletivo da sala de aula para que, sempre que surgir algum medo, as crianças possam recorrer às anotações que fizemos e se fortalecerem, relembrando nossas descobertas e constatações com essa atividade.

 

Deixar o cartaz para recorrer a ele sempre que necessário é uma  boa estratégia!!

 

🚩 CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES 

No dia-a-dia da escola, constantemente nos deparamos com questões sobre como lidar com INDISCIPLINA e quais ações podemos desenvolver para resolução pacífica de CONFLITOS.

Os educadores tem como papel mostrar às crianças que elas possuem habilidades para superar os desafios da vida escolar, que errar faz parte do seu desenvolvimento e que aprender pode ser prazeroso!

Por isso, penso ser essencial que o professor esteja atento, observe seus alunos e ajude-os a superar esse medo através de atividades lúdicas e diálogos coletivos, com o objetivo de refletir, tomar consciência de si mesmo  para ajudá-los a perceber que outras pessoas podem ter as mesmas dificuldades e sentimentos.

Com isso podemos auxiliar a gerar nas crianças o sentimento de pertencimento ao grupo e consequentemente mais segurança para superação dos problemas que dificultam seu desempenho escolar.

 

 

Venho trabalhando isso por vários anos nas minhas classes e considero o que muitos chamam de “tempo perdido” na verdade um “tempo ganho “e muito bem aplicado . É trabalhoso e muitas vezes demorado, exige muita dedicação por parte do professor, mas vale a pena!

 

▶ SUGESTÃO DE LEITURA DA PROFESSORA!

Existe muita literatura boa sobre o tema. Para quem quer aprofundar seus conhecimentos sobre o trabalho com sentimentos e moralidade infantil, deixo alguns livros que utilizo no meu trabalho diário:

  • A Psicologia da Criança. Jean PIAGET e Barbel Inhelder. Ed. Difel
  • O Juízo Moral na Criança. Jean PIAGET. Ed. Summus
  • Educador e a Moralidade Infantil: uma Visão Construtivista. Telma Pileggi VINHA. Ed. Mercado de Letras.
  • Como falar para o Aluno aprender. Adele Faber. Editora Summus Editorial
  • Quando a escola é democrática: um olhar sobre a prática das regras e assembleias na escola.  Luciene Regina Paulino TOGNETTA e  Telma Pileggi VINHA. Ed. Mercado de Letras.
  • Como Enfrentar a Indisciplina na Escola, Silvia Parrat-Dayan, págs. 144, Ed. Contexto
  • Indisciplina, Conflitos e Bullying na Escola. Joe Garcia, Luciene Regina Paulino TOGNETTA e  Telma Pileggi VINHA. Ed. Mercado de Letras.

 

O caminho para a construir pessoas equilibradas e felizes  é grande e deve ser construído aos poucos. Com esse relato, espero ter contribuído para inspirar e ampliar o olhar das pessoas em relação à importância da criação de um ambiente socioafetivo equilibrado para favorecer e auxiliar no desenvolvimento pleno das crianças.

 

 

 “Se os alunos tiverem na frente da turma um adulto que os respeita, que os escuta, que os trata como pessoas que pensam e que têm o que dizer, e não apenas como alunos […], situações angustiantes provavelmente, não ocorrerão”. (Parrant‐Dayan, 2008, p. 27).

 

Você já teve alguma experiência semelhante a essa? O que acha sobre o trabalho com sentimentos e moralidade infantil? Compartilhe comigo o que achou desse post!

Deixe seus comentários, dúvidas e sugestões abaixo! Vou adorar ler  e trocar ideias!💗

 

Quer mais ideias sobre o tema? Veja também:

Inovação: a importância das competências socioemocionais na BNCC

Mães, professoras e adaptação escolar

 

 

 

🚩 CONHEÇA A PROFESSORA DENISE!

Denise Ferreira é mãe, avó e professora, apaixonada pela arte de educar. É pedagoga e trabalha como professora do Fundamental I. Já atuou como coordenadora do Ensino Fundamental I e Educação Infantil. Tem experiência com formação de professores, em cursos do PROEPRE do Laboratório de Psicologia Genética da Faculdade de Educação da UNICAMP.

É autora do Instagram, Facebook  e blog  Papo da Professora Denise. Foi indicada como um dos mais relevantes influenciadores digitais do Brasil na área de educaçãono Prêmio Influenciadores Digitais 2017 realizado pela revista Negócios da Comunicação.

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